Museus, teatros, livrarias, cinemas, exposições. Há muitos lugares onde podemos marcar um encontro com a arte. Ela ocupa espaços físicos e virtuais e está cada vez mais próxima do nosso cotidiano. Mesmo com essa proximidade, de alguma forma, a maioria das pessoas vê e sente a arte como algo solene, algo que precisa de momento e local certos para acontecer; caso contrário, perderia seu valor.
Certo, não posso negar que há situações em que um artista solitário, com seu singelo violino, pode performar em uma estação de metrô sem sequer ser notado. Essa foi a experiência realizada com o aclamado violinista Joshua Bell, em 2007, a convite do jornal The Washington Post. Bell tocou peças de Bach em seu Stradivarius, avaliado em milhões de dólares, e, por 45 minutos, as pessoas que passavam pela estação de metrô L'Enfant Plaza, em Washington, D.C., em sua maioria, ignoraram completamente a sua presença.
De certa forma, o experimento concluiu que a beleza e o talento podem passar despercebidos quando inseridos em um contexto banal, especialmente quando os observadores estão imersos em sua rotina diária.
Tudo bem, aceito a conclusão da pesquisa.
Mas e se mudarmos um pouco o ângulo, não somente do observador, mas do objeto que está sendo observado? Então, voltamos ao lugar da arte. E vou ampliar um pouco mais, já que, além do lugar, quando falamos em arte há algo intrínseco: a inspiração. Como se a arte dependesse totalmente de um momento de luz, um insight, um amor ou uma dor para então acontecer.
Mas e se tirarmos tudo isso e expandirmos um pouco mais para uma ideia subjetiva de que nada disso fosse necessário? E se a arte simplesmente acontecesse, chegasse sem pedir licença, fizesse parte do cotidiano, esse mesmo cotidiano que ignorou Joshua Bell?
Agora sim, estou chegando no coração desse texto.
Era um dia nublado, de inverno, daqueles que nos desafiam no momento em que o despertador toca. Durante o café da manhã, eu só pensava na chuva que teria que enfrentar no trajeto para o trabalho. Nada poético, nada prático: mochila, sombrinha e a possibilidade de chegar com pernas e pés molhados.
Sem muita reflexão, peguei meu telefone, conectei os fones de ouvido, abri uma playlist de música clássica e, com a sombrinha aberta, iniciei a minha jornada.
Então surge a primeira nota, um Dó que parecia despretensioso naquela manhã e, na aleatoriedade da minha playlist, Johann Sebastian Bach preenchia o silêncio, fluindo através da interpretação singular do pianista canadense Glenn Gould.
Enquanto eu tentava fugir da chuva, a Fuga em Dó menor de Bach me fazia permanecer no momento.
Cada casa, cada árvore, cada flor me convidava a observar, sentir e contemplar aquela caminhada. Percebi minúsculas gotinhas nas poucas folhas que o outono não conseguiu levar.
Foram vinte e cinco minutos de caminhada na companhia de Villa-Lobos, Liszt, Vivaldi e Chopin.
Eu não conseguia me observar, mas podia sentir que a minha sombrinha florida contrastava com aquela manhã cinzenta.
Havia música, pintura, fotografia, poesia. Havia arte.
Quando relembro aquele dia, percebo que a arte encontra não um lugar, mas um caminho. O artista, muitas vezes, pode ser também o observador, até aquele que nunca foi artista, mas que se permitiu ser atravessado pelo momento.
Um momento que não surgiu de uma inspiração. Surgiu, pura e simplesmente, de uma situação cotidiana da vida, que encontrou na arte uma forma de se expressar.